A Atualidade do Pensamento de Allan Kardec

A Doutrina Espírita fundada por Allan Kardec, e apresentada publicamente a partir de 1857, deve ser considerada não somente atual, mas, para além disto, deve ser observada como um trabalho que apresenta aspectos que estão muito à frente de nosso tempo. Este duplo entendimento se desvela na medida em que situamos seu imenso – e sem par – valor ético e epistêmico.

Em termos de teoria do conhecimento, investigando os fenômenos, Kardec simplesmente lançou mão de todos os recursos teórico-metodológicos de sua época e ainda criou outros instrumentos que deram conta das novas demandas que surgiram. Isso significa que ele, primeiramente, usando a ciência de sua época, escrupulosamente observou, experimentou e, após considerar todas as teorias científicas disponíveis, concluiu que os fenômenos ali observados, mereciam protocolos inéditos. Em outros termos, Kardec percebeu de modo genial que os limites paradigmáticos de seu tempo já haviam sido alcançados. Tendo em mente um crucial teórico da ciência como Thomas Kuhn, por exemplo, podemos afirmar sem nenhum receio que Kardec, cento e cinco anos antes da publicação da esclarecedora obra A Estrutura das Revoluções Científicas não só já possuía um pleno domínio do assunto como já havia praticado aquilo que, conceitualmente, Kuhn viria a chamar de ciência normal e ciência revolucionária.

No campo ético, percebendo as grandiosas consequências dos ensinamentos dos espíritos, Kardec reabriu as portas para a tão incompreendida moral de Jesus possibilitando um retorno às fontes mais primitivas e puras dos ensinamentos do Mestre. A ideia de condenação eterna, tão disseminada à época quanto hoje, deu lugar às belíssimas noções de reencarnação e caridade capazes de apresentar um Deus mais justo e amoroso para com seus filhos. A obra de Kardec, renovando magistralmente a possibilidade da comunicação entre os dois planos de vida, descerrou em definitivo os mistérios da morte indicando as alegrias sublimes do reencontro e nos apresentando uma vida espiritual mais racionalmente bela e edificante. Isso significa que ganhamos uma tábua de valores morais universais, como seus imperativos éticos, diante de um mundo que, desde então, tem se mostrado relativista e materialista. De fato, vinte e três anos antes de Nietzsche começar a trabalhar com profundidade o tema do nihilismo, Kardec, na obra O Céu e o Inferno, já denunciava que, se existe uma “doutrina insensata e antisocial, esta é, seguramente, o nihilismo que rompe os verdadeiros laços de solidariedade e fraternidade, em que se fundam as relações sociais.”

Tendo em vista estas sólidas bases científicas e morais, como ignorar a atualidade de um trabalho desta envergadura? Como não afirmar diante de nossa atualidade, na qual sentimos, em dupla vertente, os efeitos de uma ciência que teima, apesar de tudo, em abraçar o materialismo e de uma ética contemporânea envolta em graves ceticismos, que as investigações kardecistas não são somente atuais, como ainda permanecem à frente de nosso tempo?

Nunca é demais lembrar que Kardec realizou este trabalho enfrentando imensas dificuldades. Ele teve que lidar com poderosas forças religiosas e políticas bem como a incompreensão, a intriga e a calúnia de seus próximos.

Nos limites de uma página, o que ainda podemos dizer sobre a atualidade da obra de Kardec?

Em face do nihilismo pós-moderno atual adstrito a um recrudescimento de ideias irracionalistas, materialistas, racistas, antidemocráticas e xenófobas os ensinamentos dos espíritos tão brilhantemente colhidos, sistematizado e analisados por Allan Kardec não são somente atuais e à frente de nosso tempo. Podemos e devemos, com humildade, afirmar que a Doutrina Espírita é, contemporaneamente – mais do que atual e avançada – necessária.

Eduardo Lima – IPCE

(IPCE- Instituto de Pesquisa em Ciências Espíritas – Facebook)

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