Caráter Progressista da Ciência Espírita

Devemos ter em mente que as explicações recebidas dos Espíritos por Kardec, acerca dos fenômenos, estavam de acordo com o grau de conhecimento dos homens daquela época, e, portanto, cabe a nós, enquanto adeptos do Espiritismo, dar continuidade a esse trabalho, agregando à teoria espírita novos elementos para torná-la atual e consistente. Com efeito, a ciência espírita foi criada por Kardec, e ele sabia que apesar do enorme trabalho realizado durante a revelação espírita, o progresso da própria ciência poderia mostrar pontos equivocados da Doutrina, uma vez que isso ocorre com todas as ciências, pois elas são resultado dos esforços de diversos pesquisadores ao longo do tempo. Com o Espiritismo não seria diferente. Segue abaixo as palavras dele que atestam a sua postura progressista:        

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Allan Kardec, fundador do Espiritismo

“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”1

Assim, “O Livro dos Médiuns” não é a última palavra em mediunidade. Longe disso, ele foi o primeiro esforço muito bem sucedido para compreender fenômenos que sempre acompanharam a humanidade desde sua tenra idade. Até a revelação espírita, estes fenômenos eram apenas tratados dentro do âmbito da fé religiosa e as pessoas envolvidas eram vítimas de muito preconceito, marginalizadas, perseguidas e mortas pela sociedade, em especial, pela religião. Curiosamente, são justamente nos livros ditos “sagrados” que encontramos diversos registros destes fenômenos. O Espiritismo veio a seu tempo para imprimir caráter científico a eles e afirmar que os médiuns não sofrem de nenhuma patologia catalogada pela ciência. São pessoas normais como outras quaisquer.

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Ernesto Bozzano, pesquisador espírita

Outro aspecto relevante é a preocupação de Kardec em refutar teorias e sistemas que dão outras explicações aos fenômenos espíritas. O “Livro dos Médiuns” possui um capítulo dedicado a isso. Trata-se do capítulo IV da primeira parte que se chama “Dos Sistemas”. Evidentemente, trata-se de uma defesa de argumentos contra a Doutrina que circulavam à época da revelação. No entanto, no ano do desenlace de Kardec, o Espiritismo sofreu severo ataque de um filósofo alemão chamado Eduard von Hartmann2, que analisou os fenômenos espíritas e lançou a teoria anímica, descartando a espírita proposta pelo Espiritismo. Sumariamente, a teoria anímica consiste em atribuir ao próprio médium a origem de todas as comunicações. Mesmo estando inconsciente, ele seria o responsável pelos fenômenos sem nenhum tipo de intervenção inteligente extracorpórea. O interessante nessa questão é perceber que os Espíritos falaram abertamente a Kardec sobre o animismo, porém com outro nome: sonambulismo. Admitiram ser perfeitamente possível que “a alma do médium pode comunicar-se como a de qualquer outro…”3, sem prejuízo a teoria espírita. 

A defesa da teoria espírita veio com o alemão Alexandre Aksakof2 e com o cientista italiano Ernesto Bozzano2 que mostraram que Hartmann apresentou uma teoria que não resolvia todos os problemas do fenômeno. Faltava-lhe, portanto, abrangência.

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Alexander Moreira-Almeida, psiquiatra

Um dos desafios que a teoria espírita enfrenta atualmente está na estreita relação, do ponto de vista de seus sintomas, entre os fenômenos espíritas e os transtornos psicóticos, como por exemplo, a esquizofrenia. Esse debate suscita alguns questionamentos, tais como: como distinguir o que é influência espiritual daquilo que é patológico? Será que todo transtorno psicótico sofre de influência espiritual? Será que a recíproca é verdadeira? São perguntas que devem ser pesquisadas para promover o progresso necessário a teoria espírita, tornando-a atual e consistente. Atualmente, existem pesquisadores na área de psiquiatria que estudam a fronteira entre as doenças psíquicas e mediunidade. Ressaltamos, entre eles, o Prof. Dr. Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES). O NUPES faz parte do programa de pós-graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 

A ciência, finalmente, através de iniciativas que transcendem a teoria reducionista materialista, começa a deslumbrar que nem todo fenômeno psíquico pode ser facilmente explicado pelas leis conhecidas da matéria. Que a hipótese espiritualista não pode mais ser renegada ao âmbito da religião, pois é uma hipótese viável, que propõe soluções que as leis da matéria não têm competência pra resolver. Eis uma excelente oportunidade que a ciência tem nas mãos de prestar um belíssimo serviço à saúde pública, recomendando tratamentos adequados e eficazes às pessoas que passam por perturbações de ordem espiritual, evitando diagnósticos equivocados, com fins de possibilitar o equilíbrio físico e espiritual daqueles que procuram seus serviços. 

Por João Viegas

Referências

1)   KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 55.

2)   MIRANDA, Hermínio C., Diversidade dos Carismas. 8ª ed. Rio de Janeiro: Instituto Lachâtre, 2013. 1 Teoria e a Experiência, Cap III Animismo.

3)   KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Influência do Espírito pessoal do médium, Capítulo XIX – Do Papel do médium nas Comunicações Espíritas, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.

 

 

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