É Dando que se Recebe?

A Sociedade ficou aterrorizada com as declarações à Justiça do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, acerca de um esquema de corrupção na Petrobras, com pagamento de propina a partidos políticos durante os anos de 2006 a 2012.

Em delação premiada, Costa e Youssef esclareceram como funcionava o esquema: os diretores da Petrobras e o doleiro negociavam com as empreiteiras o percentual da propina. Em contrapartida, as empresas conseguiam os contratos. O dinheiro da propina saia dos cofres das empresas e era distribuído aos diretores da Petrobras, a políticos e também ao doleiro.

Youssef disse que sem o pagamento da propina, o contrato não era fechado. Costa resume a lógica do sistema: “Se houve erro, e houve erro… foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos principalmente que, usando a oração de São Francisco, que é ‘dando que se recebe’. Eles usam muito isso”.

A Sociedade capitalista na qual se vive hoje é baseada nas relações de interesses recíprocos como o exemplo a seguir: o trabalhador procura por um emprego para oferecer a sua força de trabalho, em contrapartida espera receber um salário digno de seu empregador. Podemos enumerar muitos casos de relações de interesses recíprocos nos quais ambas as partes saem ganhando sem que haja transgressão das leis humanas. Portanto, todas essas relações são legítimas, podendo se aplicar o mesmo verso da Oração de São Francisco.

No entanto, vemos claramente no caso acima uma distorção do referido verso, numa tentativa desesperada de justificar o desvio de conduta e infração das leis humanas para satisfação dos interesses pessoais dos envolvidos.

Analisando a Oração de São Francisco, podemos concluir que seu autor se refere às relações de beneficência e benevolência, ou seja, a nossa capacidade de renunciar aos nossos interesses para servir ao próximo.

É neste sentido que devemos lembrar os sábios ensinos do Homem de Nazaré, quando diz: “Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita”.

Assim, não há ambiguidades nas suas palavras quando se trata de fazer o bem, que sintetizamos abaixo: o bem deve ser feito pelo simples prazer de fazer o bem, nada mais do que isso.

Não se deve esperar recompensas materiais ou morais, nem reconhecimento, nem gratidão daqueles que foram beneficiados pelas nossas boas ações. Por outro lado, aqueles que vestem a capa da bondade para serem glorificados pelos homens, e assim ganharem respeito e consideração pelas suas “boas obras”, Jesus já sentenciou: “eles já receberam sua recompensa”.

Portanto, não transportemos a lógica do sistema capitalista, por mais justa e correta que ela seja perante as leis humanas, para as nossas relações de beneficência e benevolência. Quem pensa e age assim desperdiça inúmeras oportunidades de renunciar a seu orgulho, egoísmo e vaidade, pois este é um dos propósitos de fazer o bem.

Os espíritas que têm a convicção na vida futura e na existência de Deus devem saber que todas as suas ações serão avaliadas pela sua intenção do que pelos seus efeitos. Tudo isso será contabilizado quando chegar o momento de regressar ao plano espiritual.

   Por João Viegas

Este artigo foi publicado originalmente e na íntegra no blog “Espiritismo na Essência” e simultaneamente na edição de novembro de 2014 do Boletim do CEFA.

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