Idolatria

Por: Jamille Medeiros

idolatria
Garotas idolatram um astro pop. Será que isto       também acontece na casa espírita?

Um dia estava passeando pelos corredores do centro espírita quando me deparei com um levante. Sim, um levante. Imediatamente pensei, fiz uma regressão e estou na Bastilha. Em segundos percebi que não tinha sofrido nenhum efeito mediúnico e/ou anímico. O que eu estava presenciando era uma levante dentro do centro espírita!

Fiquei analisando a situação de longe, só observando. O que eu vi, foi uma turma de alunos de um curso, tentando a “fina força” convencer o coordenador de que eles deveriam permanecer com o mesmo monitor no próximo módulo do curso que faziam. A justificativa era: que aquele era o melhor monitor de todos os tempos, não havia outro igual. Confesso que imediatamente lembrei-me da conversa que tive com um professor ateu da época da faculdade.

Eu idolatrava esse professor, me coadunava com suas ideias e ideais, dividíamos a paixão pelos mesmos pensadores. Ele um senhor grisalho e italiano, me conquistava com cada ideia que ele colocava em sala de aula, para mim não existia outro professor que conseguisse despertar em mim as ideias, as inquietações, a paixão pelos pensadores que ele me despertava. Em determinado semestre, me inscrevi em uma disciplina que nem interessava muito para minha grade curricular, apenas pelo fato que ele seria o professor. Para o meu desespero, descubro no primeiro dia de aula, que o haviam substituído por outra professora.

Em respeito à professora não me levantei imediatamente, mas assim que tive oportunidade fui procurar a coordenação, munida de toda a minha insatisfação e revolta, com um único questionamento: – como assim?

O destino me “prega mais uma peça”: quem estava na coordenação? Esse dito professor. Falei com ele, sobre a situação, pensando que ele iria se sentir extremamente lisonjeado, mas, ao contrário, passou a mão nos cabelos ralos e me chamou para tomar um café.

Ele me lançou as seguintes perguntas:

1)  Quem garante a você que ela não é melhor do que eu?

2)  Se você não der uma chance a ela, vai perder a grande oportunidade de ter outro ponto de vista ou pensar por outra linha de raciocínio. Você quer para sempre que eu seja o único a te desafiar?

3)  Na sua pós-graduação, eu não estarei lá. Talvez eles nem saibam quem eu sou.

Você irá querer para sempre ter apenas um mentor?

4)  E se eu estiver errado, como você vai descobrir? E se eu estiver certo, como você irá confirmar?

5)  Chegará um momento em que: o que eu terei a te oferecer? E o que você terá a me oferecer?

Por fim, ele me olhou e falou: poucos são os mestres que gostam de ver seus alunos os superando, eu sou um deles. Por isso, não tenho pretensão de ter seguidores. Prefiro que sigam os pensadores que já escreveram seu nome na história. A mim, deixe-me ser feliz vendo-a crescer, evoluir e me superar!

Naquele momento, lembrei-me de algo que amava na doutrina espírita, a não idolatria. E me percebi idolatrando aquele grande professor.

Continuei o semestre com esse pensamento, e escolhi essa professora para me orientar na minha monografia. E na defesa da  mesma,  pensei:  se  eu  não  tivesse  dado oportunidade a ela, não teria descoberto outra paixão dentro do meu curso.

As lições que aprendi e que espero ainda aprender, pois tenho consciência que não detenho verdades, apenas incertezas, é que posso aprender com qualquer um que cruzar o meu caminho. Seja ele quem for, até mesmo aquelas pessoas com quem não tenho muitas afinidades.

Confesso que tive vontade de virar para aqueles responsáveis pelo levante e contar a minha história, mas fiquei observando e pensando, ah…se esse monitor a quem eles idolatram, ou aquele passista que é cobiçado por ter uma “energia boa”, ou aquele dirigente de mediúnica que é simplesmente o melhor, tivessem a humildade que aquele meu professor ateu tinha, muitos problemas de melindres seriam resolvidos na nossa casa espírita.

Para mim ficará gravado eternamente em meu coração, ninguém é insubstituível, eu não sou, você não é. Todos nós temos direito as nossas opiniões, mas não temos o mesmo direito de impô-la a quem quer que seja. Respeito ao outro antes de tudo!

Comments

comments

Check Also

CEFA conclui mais um curso sobre Passe

Na quarta-feira (19/07)  encerramos mais um curso de Passe, promovido pela Coordenadoria de Mediunidade do …

Deixe uma resposta