Reflexões: Qual a Minha Dor?

A dor de quem fica, na perspectiva de quem sente a dor, é sempre maior, do que a dor do que se vai. E nesse instante você pode se perguntar: mas do quê ela fala? Ir para onde? Ficar como? Onde…?

Recentemente, vi-me em uma discussão (pacífica, que fique claro), sobre a dor de casais, onde um precisava, por motivos de trabalho, morar em outra cidade/estado/país. Enquanto a outra contraparte, por motivos diversos, não podia acompanhar seu cônjuge em tal empreitada. Coloquei através, única e exclusivamente, do meu ponto de vista, que eram dores iguais, mas com visões diferentes.

Explicar-me-ei: quem fica, fica com uma saudade sem tamanho, mantendo sua rotina, pensando no que deixou de fazer para estar na companhia do ser amado, pensando no que fazer para não sentir o peso do passar dos ponteiros do relógio e achando que sua dor é sem tamanho, enquanto o outro está desbravando novos caminhos, conhecendo novas rotinas, novas pessoas e que muito provavelmente não estará sentindo a dor de quem fica.

Já na perspectiva de quem vai, a dor também é sem tamanho, pois queria que o outro estivesse ao seu lado, ajudando a desbravar o novo e com saudade da rotina, das pessoas que ficaram, e pensando: pelo menos o outro ficou na companhia dos entes queridos, sejam amigos, parentes…e eu? Eu?! Eu estou aqui sozinho, precisando do abraço de quem ficou pra me sentir mais confiante.

Concluindo, dor é dor. A minha talvez maior que a sua, a sua talvez maior que a minha, mas de uma coisa eu sempre tive certeza, nada como escutar a dor do outro, para avaliarmos nossa própria dor.

Então, apenas um dia após esse bate papo, recebo o telefonema de alguém muito amado, com quem eu andava um pouco chateada, por ter vindo até a cidade que moro, ter ligado, mas não ter me visitado. Já atendi ao telefone falando: adivinhou que ando chateada com você?!

E ela ligou pra falar que me amava (não duvidava disso!!), e o fez porque acabara de receber a notícia de que outro alguém muito querido, que fez parte de nossa infância/adolescência, alguém mais novo que nós, havia falecido. Dera entrada no hospital para um atendimento emergencial, mas nada que pensássemos ser grave. Para nossa surpresa em menos de 24 horas, parte à Pátria Espiritual, deixando marido, filho pequeno, uma família inconsolável e amigos tantos que se questionam sobre a fragilidade do estar vivo.

Indaguei-me o que esses fatos têm a me falar. Passei uma noite quase inteira em claro, pensando. Sou espírita, disso tenho certeza, até porque quando me questiono sobre isso, recorro ao Evangelho: “reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral, e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações”¹. Esforço eu faço, faço mesmo, sem falsas humildades. Se estou conseguindo, ou não, foi o motivo das minhas inquietações noturnas.

Várias passagens do Evangelho me ocorreram. Questionei-me, o quanto ando amando o meu próximo como a mim mesmo, o quanto eu ando me amando para que eu possa amar ao meu próximo como a mim mesmo, do que anda se alimentando meu corpo e o mais importante, do que anda se alimentando meu espírito.

O dia que meu fluido vital irá se escoar não pode ser mensurado nem por mim, nem por você. Posso anoitecer e não amanhecer, como nos fala o ditado popular, e o que ando fazendo dos meus dias e das minhas noites? É um evangelho do lar atrás do outro, palestra, seminários, livros vários, mas ando colocando em prática o que ando “absorvendo” na teoria? Sabemos, às vezes de cor, sobre o egoísmo, orgulho, paciência, caridade, mas quando e como elas se apresentam depois que cruzamos a calçada do centro espírita? Meu discurso anda coerente com minhas atitudes? Meus conselhos são antes absorvidos por mim?

Qual das duas dores eu quero sentir, a de quem vai ou a de quem fica?

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1 Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVII – Sede Perfeitos, Item 4 Os Bons Espíritas. Editora EME

 Crônica por Jamille Medeiros

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